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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Nuvens laminadas,dispersas sob o céu seguramente escuro. Acima de uma das lâminas gasosas, duas estrelas pontilham - timidamente - luz segura.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Acorde sangrando

E o dia amanhece
demoro a acordar.

Rua, continuamente perambulada, sem me oferecer
nada
que diga porque raios eu continuo
aqui, nada
me satisfaz que me acorde
que me suplique
olhos abertos, peito aberto
mente
um turbilhão esticou um fio
nylon transparente, aparentemente - nada

Corta-me, corta-me
sem notar, caminhando
acordo esbarrando, e caio
no nada do parquê do meu quarto

Corda invisível traiçoeira
no chão: eu
Ela, ainda esticada
retirando, roubando-me sangue
equilíbrio entre pedaços de madeira
furtada de mim.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Lobo trepidante

           Lobisomem de olhos fundos. Vestias camiseta branca, e a mesma calça jeans. Atravessei a rua, e te vi. Que preocupante esse teu olhar azul-cavado-desesperado. Senti-me constrangida pelo teu embaraço, pelo teu desespero de lobo. Também pela velha calça, pelas franjinhas démodé - que faziam o acabamento, encostadas na botina de couro marrom. Não entendi absolutamente nada. O que querias com teu olhar? Antes de fitar-me, tira tua barba, tá grande demais, não consigo te decifrar... O que esperas nessa rodoviária suja? Parece-me que estás aí há muito tempo. Aguardas o ônibus que te levará para onde? Para um lugar melhor, diferente, ou estás retornando?          
          Pregado ereto, de pé, teus olhos nadaram no ar, confundiram-se no azul do céu, e esse, se fez confuso, e também indecifrável. Que poder tens? Pois eu acho que tu aguardas a noite. A noite que não sai de ti, que não te abandona, que não te confunde – já que te misturas a ela.
          Fitaste-me profundamente, intensamente, como quem precisasse daquele olhar, para parar de aguardar a noite que sempre vinha que sempre te puxava para algum lugar escuro, mas não sombrio. Passei perto de ti, não desmagnetizamos nossos olhares, diluídos na sujeira da rodoviária...
          És lobo, e não consegues largar teus instintos ariscos, silvestres, rudes. A noite que aguardas sem mais vontade de aguardar, não é capaz de domesticar-te, tampouco eu. Tira tua barba, peço-te dessa vez sem carinho. Tira isso, homem-lobo! Depois, tira teus olhos do que não te diz nada, que tal se tu olhares pra troposfera? Ela te imerge, presta atenção. E no fim do dia, descansa, reflete o azul dos olhos pra dentro de ti, e te ilumina cintilando sonhos. A noite também não te aguenta mais.