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sábado, 2 de julho de 2011

A língua queimada de sabores inusitados
Os ombros cansados, e o sol ainda assa minhas pálpebras.

Sensitiva, percebo a brisa movimentar substâncias disformes aqui dentro.

sábado, 16 de outubro de 2010

flameja

O fogo me beliscava no escuro
Sua chama flamejando num dourado,
E um vento que a levava para mais perto de mim.
Vento que fluorescia por onde passava.

Vento és tu, que me faz pouco caso.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Distensão


Olha só quem está por aqui. Imagens, cordas que procuram dedos afinados que reconstruam aquelas atmosferas que repetidamente dividimos. Não importa se tu não te lembrares d’alguma parte, eu escrevo sem nenhum problema, quero aumentar, procuro intensificar os mais intensos versos que reparti contigo. Confesso que essa tarefa me soa pretensiosa – levando em conta que ao aumentar sentimentos, esses tendam parecer um tanto quanto exagerados – enquanto eu e tu sabemos que isso é dispensável. Talvez alguma magia me assombre ou me encante ao lembrar dos teus olhos ou do meu peito palpitante. Ou alguma sombra descubra aquele medo – te falei, sou covarde – cinza. Apenas cinza. Nem branco nem preto, nem luz nem breu, nem sonho nem realidade. Me fala...que cor tu vês ao lembrar do nosso verão? Sinto tudo torto. Sinto-nos na distorção da fumaça do meu cigarro, encaracolada, cinzazulada. Prosa inacabada, cinzeiro vazio, troncos e galhos e folhas secas daquele mesmo jardim de antes, onde esquecemos quaisquer partes nossas.... Onde, fria, sento e componho agora.

(Mas tu dedilhas uma coisa qualquer que ecoa em cada canto do meu corpo.)

De meus dedos escorrem versos cinza – pouco numa melodia tão simples e bela e pura. Não me peças que relaxe: repercutem descompassademente corpos todos digitais, nós numa piscina de bolinhas multicoloridas, brincando sem culpas vazios escrúpulos... Não posso mais brincar sozinha. A vida me arranca tua companhia, e me faz querer-te mais. Cores não me satisfazem. Veja, pequena, minhas inteções não passam de utopias que se encostam no teu ombro. Tua respirada profunda nas minhas costas, sem cobertores, me provocam.

(Querer esconder-me em ti).

 Em cada poro cinza, em cada verso preto ou branco, e em todos os pelos que iriçam em ti quando te voltas pro meu rosto. As cordas ficaram opacas - sem som - e não posso mais rememorar. Onde gravaste teu rosto roxoesverdeado pra mim? Me olhavas por espelhos maiores que meus olhos pudessem refletir. Desculpa, preciso da tua mão. A melodia se contenta, se incorpa, e finalmente estabelece-nos plenas. Tornamo-nos observadoras das atmosferas que sem cor nos rasgam e nos mantêm o calor nas mãos.

(sucedeuassim e lusca-fusca)

domingo, 11 de abril de 2010

Mosquitos cromados

Essa noite só sonhei com quem eu amo.
As borboletas cintilam douradas lá fora
pelo dia que está lindo, pelos muros vazios.

Azulejos de cemitério me aconchegam, e me transportam:
estou indo pra um lugar menor
melhor.

Minha vida está entre paredes novas e borboletas vazias que
douram,
gratinadas pelo sol.

Mosquitos sobem em minha janela putrefando corpos esquecidos.

Os sonhos que tanto amei
vazios, cromados
embaixo;
ferrugem,
acima fuligem dispersa.

Sobre o asfalto, movimento. Abaixo, terra esquecida
vermelha, bruta, pura
Sob o céu azul-celeste, sonhos novos que
assustadamente, amo-os.

Respiro cerrando as pálpebras para que as borboletas pousem em minha cabeça, larguem
minha barriga e fervam em cada poro, corroendo e abrindo espaço para quadros, tintas e amor bruto, vermelho, escorrido.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Cortinas brancas

Cortinas essas, que em valsa com o vento, cubram e descubram pedaços ínfimos da minha mente.
Inteiramente nua, permanentemente nua. Escondendo-me em roupas diversas, e através dessas, procurando mostrar um pouco de mim.
Oculto-me na dificuldade de cobrir.
Enfim levanto: de branco, um vento me raspa por detrás das orelhas, e em um repente derrapo em cortinas. Caio presa em versos brancos e panos insuficientes.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Simetria Refutada

Percebi-me assimétrica, sendo um lado do meu corpo o oposto do outro. Como se uma linha vertical cortasse-o.

ESQUERDO: Ouvia alguma música cósmica. Minha mão, extremamente gelada, em um dia exacerbadamente quente.

DIREITO: Ouvido destampado - escutava o barulho urbano, e a mão – que segurava o cigarro, encontrava-se superaquecida.

O céu retinha bolas de algodão, e quando alguma dessas bolas era varrida pelo vento, descobria-se, então, o calor desumano, desvairado e fúlgido. Enquanto na sombra, deliciosamente, o vento aureolava-me.

Foi então – entre calores febris e auréolas -, que a mão gelada tocou na outra, que estava quente. No instante do contato completo, foi como se instaurado o concerto Primavera (Vivaldi), trocassem bruscamente para a 6ª sinfonia - a trágica - de Mahler.
As diferenças de temperatura, os tecidos, a proximidade, retirando e recebendo calor.  Achei-me atônita e arrepiada: o ilustre encontro entre mãos. Ambas minhas, entretanto, estranha uma à outra.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Pra fora

Escrevo qualquer palavra
Sentimentos cheios de qualquer coisa.
Olhos confusos me olham pela janela.

Sufoco-me na fumaça do cigarro, e tusso como se pudesse expelir qualquer saliva que expelisse qualquer coisa de dentro que precisasse ser expelida sem que eu soubesse que coisa é essa - que me sufoca que me ferve e que me faz querer digitar rápido pra então ir à janela, cuspir.

Não é exatamente ruim a sensação.
É libertador escarrar ânsias

Deixo-me envolver por ritmos aceleradamente calmos
Fecho os olhos confusos, e trago outro
Descubro que o místico desse tufo líquido está entre a garganta e a ponta da língua.
Engulo o fumo espesso com rijeza
Macio liame!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sorriso só(lido)

(Para ser lido ouvindo “Shine on you crazy diamond (part I-V)” – Pink Floyd, a partir dos 4min e 29seg)

           O céu nublado, misturado com a cafeína que me ferve por dentro: quero saltitar, como um antílope despreocupado com seus predadores.
Sequenciada por uma dose qualquer de loucura, preciso correr até que minhas pernas fiquem pelo caminho, e meu corpo levite - delicado sobre o ar - rápido, veloz, diagonal, sangrento. Até que a última gota aliviada de sangue caia, e em torno de si formem-se gotículas cada vez menores, coloridas de menos vinho, e mais vermelho.
          De noite, tenho planejado – confesso – sair dançando sob os postes de luz queimados.
                                                           
                                                                Expandirei.

         No infinito vesperal, miro astros que confirmem minha solidão – não mais desesperada ou conformada, mas repleta de ventura -, e sorrio baixo, e sorrio quase triste, e sorrio repleta de céu. Enquanto isso, o espaço me carrega para qualquer dimensão de raios purpurados e ventos brancos, brancos.

Invólucro (in)solúvel

Talvez sejam erros mesmo, palavras.
Medo de colocá-las equivocadamente...
Medo de aproximar de ti, és tão sistematicamente embalada nalguma cápsula
Vontade de dissolver-te

Misturo o alfabeto
Misturando-me.
Acerto enfim, as palavras.
Elas me subvertem.

Ditas em excesso,
confusão: a sonoridade me transporta pra qualquer lugar derretido.

A cápsula começa a perder a tinta, mas não a rigidez
(Palavras em excesso, confundem-me)
Abraço pessoas com naturalidade
Entretanto, alguma névoa repulsa te contorna, e não permite meu contato completo
Névoa inferida por mim, ou projetada por ti

As palavras perdem também a tinta, mas essas ficam transparentes - já não posso defini-las.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Imprecisões exatas

E começo a acreditar em alguma coisa que ainda não consigo definir o que é, se pudesse senti-la, seria macia e densa, como uma esponja espumando bolhas-brancas-pesadas. Uma vontade que agoniza (mesmo sem saber por que agoniza, e por que é vontade).Seria a esperança de desejar? Talvez uma ilusão incapaz de enganar-se... (Quanta incompletude!)

Olhei para uma tríade capaz de formar um Si: estava feito o acorde completo e composto por três notas logicamente manejadas. Não eram apenas notas. Uma vez juntadas e norteadas por um tom, tornavam-se perfeitamente e incontestavelmente um acorde.

Impreciso são meus olhos e são meus cegos engasgos. Imprecisas são minhas percepções. Tão grudadas em desejos e incertezas , que talvez sejam um pouco de cada.

(Não faço ideia do que realmente espero, mas noto que espero...e.es.esp.espe.esper.espero)

Hoje um pássaro pousava convicto em um arbusto. Não ficou ali por mais de três segundos. Freneticamente olhou tudo ao seu redor - e já impulsionando o arbusto para baixo -, cantarolou qualquer canção. As notas de sua melodia expandiram e perderam-se no ar enquanto ele (por consequência do êxito no impulso aplicado) ganhava altura e velocidade. Naqueles instantes, o arbusto, a cantoria e o até mesmo o ar fora seu. Um momento denso e macio agonizou freneticamente com o seu vôo.
Ele não soubera o motivo pr’um impulso -, nem tampouco o que aguardara por menos de três segundos -, mas conquistara com esse movimento um acorde perfeito.